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Poemas da Lua Cheia

Poemas da Lua Cheia

Solidão

por Dita Dura, em 31.12.16

Já estou habituado à solidão,

os minutos que não passam dentro de um corpo vazio,

um buraco no peito que é tão real como a carne,

a memória de ti há mil invernos atrás,

o teu abraço que me protegia de todo o mal,

os nossos sorrisos despreocupados com a vida à volta,

 amar alguém tanto como te amava a ti

 

Ninguém se habitua à solidão,

o silêncio que não para de gritar aos ouvidos,

ninguém à minha espera a hora nenhuma,

os risos nas outras casas dentro do frio da minha,

não há quem fale comigo ou me diga uma palavra,

a lembrar um passado que nunca mais volta,

à espera que o tempo passe depressa

Metamorfose

por Dita Dura, em 17.12.16

Eu estou fechado na minha concha púrpura feita de mel

que ninguém ousa tocar pelos espinhos silvestres

que deixei crescer na lua que me entristece a alma

quando a vejo sempre que brilha assim como hoje,

clara e cristalina como nunca,

até desaparecer e me deixar sozinho como sempre estou,

imerso na escuridão fria que só eu vejo e mais ninguém toca ou compreende,

fechado no comprimento da verdade que purifica

e que nunca mais ninguém ouvirá

desde aquele dia em que me disseste que te ias embora sem mais voltares.

 

Eu estou cansado das mesmas verdades absolutas

que explicam as atitudes que não quero compreender

nos buracos escuros que mais ninguém vem buscar

desde que me tocaste com as tuas rimas que só entendi tarde demais

para me fazer esquecer os teus olhos escuros deitados na minha pele clara

até o amanhecer acordar quem nunca o chamou,

vem por isso na tua luz de penumbra que mais ninguém compreende,

faz-me esquecer as tuas palavras duras que me afundaram

no fosso imerso em podridão que eu inventei

quando te vi pela última vez deitada na cama à minha espera.

 

Anda comigo deitar-te no mar calmo que mais ninguém espera,

nas águas profundas da solidão que me encontra sempre que respiro o ar que te circunda,

essa vontade imensa de te ver ser quem sempre foste e nunca acabarás de ser,

a verdadeira mágoa que nunca deixei de chorar,

mesmo quando naquele dia me disseste que nunca mais me querias ver

e rompeste os céus numa faísca que fez tremer a terra,

agitando as águas até seres um com a noite que me ensombrece o espírito,

numa agitação que mais ninguém vai compreender,

até o fim dos tempos, onde mais ninguém negará nada.

A dança

por Dita Dura, em 13.11.16

Antes de ti eu sabia escrever como devia

e não eram palavras que o vento levava,

eram gotas de água de uma fonte viva

que o sol derramava e que a lua bebia

enquanto tu dançavas graciosamente

uma valsa que só os deuses ouviam

e eu ficava inebriado a olhar para ti

 

Agora sei que não era uma música alegre

aquela que tu dançavas e eu sorria,

era uma melodia destroçada e triste

como as palavras que escrevo agora

e só sei que ainda tenho saudades tuas

porque quando eu ainda sabia escrever

não imaginava que havias de me deixar

Os melhores dias

por Dita Dura, em 14.10.16

Um trabalho toda a vida que te mata todos os dias,

à espera do dia em que tudo acaba com o inferno,

dias lentos, prolongados, cansativos, desesperantes,

com sensação de derrota mesmo na vitória breve,

sem sentido, razão, significado, valor ou felicidade,

percorrendo uma rua sem saída que te leva ao fim,

onde um louco se senta no caminho à tua espera

 

Nos melhores dias há prostitutas para toda a gente,

vinho barato, música de rancho e presunto fumado,

mas os piores dias são a grande maioria do tempo,

com impostos e servilismo em fatos com gravatas

de homens com mau hálito, rastejantes, imundos

mesmo quando estão limpos, ratazanas sem honra

à procura dos melhores dias da vida que os mata 

 

Mas acordas todos os dias com uma esperança triste,

acreditas que tudo vai mudar num instante sem dor,

flores vão crescer à medida que passas no caminho,

rosas cor-de-rosa que vão jurar ser bem vermelhas,

a tristeza que te aperta desde sempre o coração frio

vai desaparecer como num passe de magia fantástica

e nunca mais, juro-te que nunca mais na tua nova vida

vais sofrer ou sentir dor ou esperar por melhores dias.

A vida em papel

por Dita Dura, em 05.10.16

A vida escrita em papel é muito mais fácil do que a real:

não há senhorios a baterem à porta no dia nove

a dizer que a renda está atrasada,

patrões a ameaçar despedir-nos

porque o trabalho não ficou à maneira deles,

o estômago a roncar de fome a meio da noite

porque não há comida na cozinha.

Na vida real chove demasiadas vezes lá fora

e eu fico cá dentro a perguntar-me porque não vou para a rua

ter com os loucos e os sem-abrigo,

a água a escorrer pelo vidro abaixo

e a minha respiração a embaciar o vidro.

 

Na vida escrita há marinheiros com vidas extraordinárias,

caçam baleias gigantes durante o dia

e durante a noite dormem com belas prostitutas,

são momentos únicos que formam as semanas,

gente que só tem doenças graves se fizer sentido.

Ás vezes eu sou um desses personagens gloriosos,

fico a imaginar-me enquanto lá fora chove sem parar

e os loucos e os sem-abrigo chamam por mim.

Loucura

por Dita Dura, em 24.09.16

A noite cai e o medo instala-se nos ossos,

insinua-se aos poucos como uma doença

e depois permanece até ao fim da morte

passados dois, dez ou vinte e cinco anos.

 

Não é preciso isso para se ir para o manicómio,

não são as grandes coisas que te levam para lá,

crimes, catástrofes, assassínios, terramotos,

são sim as pequenas tragédias do dia-a-dia.

 

A declaração de impostos que tem de se fazer,

a conta da luz em que amanhã é o último dia,

fazer-se o trabalho diário ou ser-se despedido,

passar a noite a ouvir-se a torneira a gotejar.

 

Um Governo estúpido que não nos representa,

um ladrão que só rouba as malas das velhinhas,

o fabricante de saquinhos de açúcar para café,

a empregada que lava a rua com uma mangueira.

 

Todos os que nos mandam para os manicómios

nem sequer fazem ideia do mal que fabricam,

quando a noite e o medo instala-se nos ossos

e depois assim permanece até ao fim da morte

Espero que explodas

por Dita Dura, em 17.09.16

Tão bonita mas num uniforme tão feio

tão educada mas tão mal domesticada

tão indecisa mas tão certa de tudo

tão “preciso de ti” mas tão “vai à merda”

eras tudo num só pacote tão sincero

 

Quando terminámos nunca percebi

porque é que não me libertaste de vez

em vez de andares a brincar aos ciúmes,

porque é que não me deixaste falar,

eu tinha tanto para te dizer até hoje?

 

Quando terminámos estava inacabado

apesar da desilusão que permaneceu

mas ficaram só as mágoas que me deste

afogadas numa tristeza que não teve fim

por isso espero que explodas de uma vez.

 

 

Abandonado

por Dita Dura, em 04.09.16

Destroçado, esmagado, submerso, partido

em pequenas e incontáveis partes de nada,

deixado para morrer numa esquina qualquer

enquanto todos os transeuntes me calcam

e eu sangro das mil e uma feridas abertas

 

Foi mais uma mulher que me abandonou

sem eu saber porque gostam de o fazer

mas a saber que mereço cada soco seu,

tal como um qualquer cão vadio e raivoso

merece ser deixado a morrer aos poucos

 

Caído, quieto, morto por uma bala invisível

numa guerra que nem sequer escolhi lutar,

tudo o que eu queria era o que todos têm

sem serem abandonados todos os dias

e deixados a morrer nas ruas sujas da vida

 

Nem sequer há propósito no meu sofrimento,

não há um motivo nobre que atenue a dor,

só sinto uma indiferença que salga as feridas

no riso trocista das mulheres que me mataram

e nos gritos das hienas que se alimentam de mim.

A rapariga do chapéu enfeitado com diamantes

por Dita Dura, em 26.08.16

Ela era uma rapariga rica

e não tinha problemas em mostrar isso a toda a gente.

É que ela tinha um chapéu enfeitado com diamantes.

Por onde quer que ela passasse,

toda a gente ficava a olhar para o chapéu.

Ele era um rapaz pobre,

tinha só uma camisa e umas calças que não estavam rotas.

Ele dizia-lhe que ela era muito bonita

e que não precisava de ter um chapéu enfeitado com diamantes

para que notassem nela.

 

Naquele dia foram sair à noite

e ela pediu-lhe para ir dançar na discoteca da moda,

mas acabaram por adormecer no velho carro dele.

Ali dentro ninguém podia ver o chapéu enfeitado com diamantes,

mas era assim que ele queria,

longe dos olhares curiosos da multidão,

 ela era a rainha dele

e não se importava com o chapéu enfeitado com diamantes.

 

Passou um amigo dela

num carro descapotável com rubis nas rodas

e buzinou para que eles acordassem.

Ele não gostava deste amigo dela

e ainda por cima estava a convidá-la

para ir dançar na discoteca da moda.

Ela entrou no carro descapotável com rubis nas rodas

e esqueceu-se do seu chapéu enfeitado com diamantes.

O rapaz pobre ficou sozinho,

a olhar para o chapéu enfeitado com diamantes

e resolveu deitá-lo fora,

para não voltar a chorar quando visse outra vez

a rapariga do chapéu enfeitado com diamantes.

Segredos

por Dita Dura, em 21.08.16

No calor de Agosto,

ele chama pelo nome dela.

Só ela conheceu os segredos do Verão,

debaixo do luar, em frente à praia,

para sempre nos sonhos dele.

Quando ele se foi embora, ela ficou perdida,

sem ninguém para cuidar dela como só ele sabia.

Só então ela se lembrou

que ele tinha os olhos mais tristes

que ela havia visto

e uma vez até chorou nas dunas

como se tivesse sido tudo um sonho,

 mas abraçou-a mais uma vez,

a última.

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